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Antípodas

— O sol está se pondo, você viu? A parte de baixo dele já começou a desaparecer no horizonte.

— Então a esta hora deve estar amanhecendo no Japão.

— Onde?

— No Japão. Do outro lado do mundo.

— Ah, os antípodas.

— Pois é, os antípodas.

— An-tí-po-da é uma palavra horrível, não?

— Melhor que artrópodes.

—Hein?

(silêncio)

— Eu quero me matar.

(silêncio)

— Eu estou apaixonada.

— Você quer se matar porque está apaixonada?

— Acho que sim.

— Mas você só tem dezesseis anos.

— E o que que tem? Não sei quem foi que disse que a gente devia se matar na adolescência, quando as coisas ainda são bonitas.

— As coisas não são bonitas?

 -Não. Odeio cada pedra desta cidade. Cada porta. Cada casa. Cada cara que passa por mim na rua. Odeio, odeio.

— Mas não se mate.

(silêncio)

— Por favor.

— Por favor o quê?

— Não se mate.

— Ah, esquece. O sol está indo embora. Só falta um terço dele.

— Ninguém se mata por amor.

— Agora só tem uma lasquinha dele, bem vermelha

— Olha, uma vez eu li um cara, um escritor chamado Cesare Pavese, que dizia assim: “Ninguém se suicida por amor. Suicida-se porque o amor, não importa qual seja, nos revela na nossa nudez, na nossa miséria, no nosso estado desarmado, no nosso nada”.

— E o que aconteceu com ele, esse tal Cesare?

— Se matou.

(silêncio)

— Pronto. Foi-se. O que era mesmo que você estava dizendo?

— Não importa.

(silêncio)

— Agora o ventinho.

— Hein?

— O ventinho, você nunca reparou? Logo depois que o sol se põe sopra sempre um ventinho da banda do rio.

— Nunca notei.

— Olha só: está vindo. Sinta. Veja as folhas daquela acácia ali, as bem de cima, como se movem.

(silêncio)

— Um dia até pensei em perguntar ao professor por que sempre vem esse ventinho. Depois eu não sabia se perguntava pro professor de Física ou de Geografia. Achei melhor não perguntar nada. Você sabe?

— Bom, acho que tem que ser alguém que entenda de Meteorologia.

— Não, não: você sabe por que vem esse ventinho?

— Sei lá, acho que deve ser o ar que esfria e se desloca, produzindo o vento. Alguma coisa assim.

— Ia ser irreparável…

— O quê?

— Dar um bandeira dessas, cara. Imagina só, perguntar sobre ventinhos para um monstro daqueles.

(silêncio)

— Como foi que você disse?

— Eu disse alguma coisa?

— Disse sim. Sobre um tal ar frio.

— Ah, é. Ele se desloca e aí produz o vento.

— Legal. Que professor era aquele que você acha que entende disso?

— Meteorologia?

— Mas não tem aula disso.

— Então não tenho idéia.

(silêncio)

— A essa hora alguém deve estar indo dormir de porre no Japão.

(silêncio)

— Deve ser engraçado japonês bêbado, com aqueles olhinhos. Devem ficar menores ainda, e tão apertadinhos que nem dá pra ver que estão vermelhos. O que é que você acha que japonês bebe?

— Acho que saquê.

— Saquê não é chinês?

— Então uísque, gim, vodca, cerveja, vinho, essas coisas que todo mundo bebe.

(silêncio)

— Coisa mais besta.

— O quê?

— Beber essas coisas. Porre de japonês devia ser diferente.

— Porre é porre. Diferente como?

— Ah, sei lá. Antípoda, por exemplo. Um porre antípoda.

(silêncio)

— Deve ter alguém acordando também.

— Hã?

— No Japão, deve ter alguém acordando lá. O que é que você acha que japonês faz quando acorda de manhã?

— Não sei. Lava a cara, acho. Depois escova os dentes, toma café.

— Café não. Toma chá.

(silêncio)

— E deve também ter alguém com insônia. Bem agora, na hora que os passarinhos começaram a cantar, deve ter um japonês com insônia olhando o dia nascer. Embaixo da minha janela tem um bem-te-vi que canta sempre lá pelas cinco da manhã. Será que no Japão tem bem-te-vi?

— Deve ter.

— Rouxinol eu sei que tem. Não tinha uma história de um imperador e um rouxinol?

— Não me lembro bem, mas acho que aquele imperadorera chinês.

— Ah, mas tudo que tem na China deve ter no Japão.

— É, pode ser.

— Arara eu sei que não tem. Nem na China nem no Japão.

(silêncio)

— Quero pintar a minha janela daquela cor lá em.

— Qual, a rosa?

— Não, não. Aquela um pouco mais pra direita da última janela à esquerda no alto daquele prédio grandão aqui em direção ao meu dedo indicador. Está vendo?

— Acho que sim. Mas não sei se é a mesma que eu estou pensando.

— Aquela, entre o rosa e o azul escuro.

— Roxo, você quer dizer.

— Não, não é assim tão-tão. É mais uma entrecor, fica no meio do roxo e do azul-escuro. Mas muito mais pro lado do azul do que do roxo. Olha bem: você vê que até tem um pouco de rosa, mas tem uns dois ou três poucos mais de azul, entende?

— Índigo?

— Ah, eu gosto desse som: in-di-go. Que nem ar-tró-po-de. An-tí-po-da.

(silêncio)

— Você gosta de palavras? Eu também, mas gosto mais de cores. Como é mesmo essa que você falou?

— Acho que é assim tipo um azul-anil.

— O que é anil?

— Uma coisa que usavam antigamente para lavar roupa, acho que nem existe mais.

— Mas existe?

— O anil? Claro que existe. Existia, pelo menos.

— Não, não. Que coisa também, às vezes você parece que não entende o que a gente diz. A tal cor, o índigo.

— Ah, claro que existe. Aquela que você quer é que não existe. Só no céu.

(silêncio)

— Quer dizer que o que está no céu não existe?

— Não, não é isso. O que eu quero dizer é que aquela cor lá você não vai encontrar numa lata para pintar uma parede.

— Janela.

— O quê?

— É janela que eu quero pintar, não parede. E agora nem adianta mais, já mudou tudo. Cor de céu é coisa que muda depressa demais. Foi ficando tão escuro, você reparou? Quase tudo azul, depois preto. O preto vem vindo devagar do outro lado, de onde fica o Japão, toda noite.

 (silêncio)

— Está anoitecendo. Vamos embora.

— Não quero ir embora. Eu vou dormir aqui.

— Não pode, é perigoso.

— Perigoso por quê?

— Você só tem dezesseis anos.

— E isso é perigoso?

— Perigosíssimo.

— Pouco me importa. Eu vou ficar aqui até anoitecer completamente no Japão amanhã de manhã. Não é assim? Amanhece aqui, anoitece lá. Anoitece lá, amanhece aqui.

(silêncio)

— Vamos, então? O motorista está esperando.

— Já disse que não. Vou dormir aqui.

— Então vou chamar o motorista, vou ligar para o seu pai.

— Pode ir. E quando você for, eu vou entrando no rio enquanto amanhece no Japão.

— Pra quê?

— Eu quero me matar enquanto amanhece no Japão.

(silêncio)

— É só você dar as costas e eu entro nágua. Duvida?

(silêncio)

— E todo mundo vai achar que a culpa é sua.

(silêncio)

— Ué, você não vai? Tá fazendo o que parado aí?

(silêncio)

— Não adianta nada meu pai pagar você só pra ficar me controlando. Porque se não for hoje, vai ser amanhã ou qualquer outro dia. Vou me matar bem na hora em que estiver amanhecendo no Japão.

(silêncio)

— Ninguém vai me impedir.

(silêncio)

— Estranho.

(silêncio)

— De repente eu tive a impressão que você não estava aqui.

(silêncio)

— Que você estava lá.

(silêncio)

— No Japão. No outro lado do mundo.

(silêncio)

— Eu vou dizer que você tentou me estuprar.

(silêncio)

— Todo mundo vai acreditar.

(silêncio)

— Deve estar bonito lá, amanhecendo.

(silêncio)

— Eu vou começar a gritar.

(silêncio)

Caio Fernando Abreu (1989) (hopeyourinstinct)

VALE MUITO A PENA LER! :) É LAMENTAVEL… MAS FICA UMA ALERTA A TODOS. NÃO DEIXE DE LER POR SER GRANDE DEMAIS ISSO MERECE SER LIDO POR TODOS VOCÊS.

Meu nome é Patrícia, tenho 17 anos, e encontro-me no momento quase sem forças, mas pedi para a enfermeira Dane minha amiga, para escrever esta carta que será endereçada aos jovens de todo o Brasil, antes que seja tarde demais. Eu era uma jovem “sarada”, criada em uma excelente família de classe média alta de Florianópolis. Meu pai éEngenheiro Eletrônico de uma grande estatal, e procurou sempre para mim e para meus dois irmãos dar tudo de bom e o que tem de melhor, inclusive liberdade que eu nunca soube aproveitar. Aos 13 anos participei e ganhei um concurso para modelo e manequim para a Agência Kasting e fui até o final do concurso que selecionou as novas Paquitas do programa da Xuxa. Fui também selecionada para fazer um Book na Agência Elite em São Paulo. Sempre me destaquei pela minha beleza física, chamava a atenção por onde passava. Estudava no melhor colégio de “Floripa”, Coração de Jesus. Tinha todos os garotos do colégio aos meus pés. Nos finais de semana freqüentava shopping, praias, cinema, curtia com minhas amigas tudo o que a vida tinha de melhor a oferecer às pessoas saradas, física e mentalmente.
Porém, como a vida nos prega algumas peças, o meu destino começou a mudar em outubro de 1994. Fui com uma turma de amigos para a OCTOBERFEST em Blumenau. Os meus pais confiavam em mim e me liberaram sem mais apego. Em Blumenau, achei tudo legal, fizemos um esquenta no “Bude”, famoso barzinho da Rua XV. À noite fomos ao “PROEB” e no “Pavilhão Galego” tinha um show maneiro da Banda Cavalinho Branco. Aquela movimentação de gente era trimaneira”. Eu já tinha experimentado algumas bebidas, tomava escondido da minha mãe o Licor Amarula, mas nunca tinha ficado bêbada. Na quinta feira, primeiro dia de OCTOBER, tomei o meu primeiro porre de CHOPP. Que sensação legal curti a noite inteira “doidona”, beijei uns 10 carinhas, inclusive minhas amigas colocavam o CHOPP numa mamadeira misturado com guaraná para enganar os “meganha”, porque menor não podia beber; mas a gente bebeu a noite inteira e os “otários” não percebiam. Lá pelas 4h da manhã, fui levada ao Posto Médico, quase em coma alcoólico, numa maca dos Bombeiros. Deram-me umas injeções de glicose para melhorar. Quando fui ao apartamento quase “vomitei as tripas”, mas o meu grito de liberdade estava dado.
No dia seguinte aquela dor de cabeça horrível, um mal estar daqueles como tensão pré- menstrual. No sábado conhecemos uma galera de S.Paulo, que alugaram um “ap” no mesmo prédio. Nem imaginava que naquele dia eu estava sendo apresentada ao meu futuro assassino.
Bebi um pouco no sábado, a festa não estava legal, mas lá pelas 5:30h da manhã fomos ao “ap” dos garotos para curtir o restante da noite. Rolou de tudo e fui apresentada ao famoso baseado “Cigarro de Maconha”, que me ofereceram. No começo resisti, mas chamaram a gente de “Catarina careta”, mexeram com nossos brios e acabamos experimentando. Fiquei com uma sensação esquisita, de baixo astral, mas no dia seguinte antes de ir embora experimentei novamente. O garoto mais velho da turma o “Marcos”, fazia carreirinho e cheirava um pó branco que descobri ser cocaína. Ofereceram-me, mas não tive coragem aquele dia.
Retornamos a “Floripa” mas percebi que alguma coisa tinha mudado, eu sentia a necessidade de buscar novas experiências, e não demorou muito para eu novamente deparar-me com meu assassino “DRUGS”. Aos poucos meus melhores amigos foram se afastando quando comecei a me envolver com uma galera da pesada, e sem perceber eu já era uma dependente química, a partir do momento que a droga começou a fazer parte do meu cotidiano. Fiz viagens alucinantes, fumei maconha misturada com esterco de cavalo, experimentei cocaína misturada com um monte de porcaria. Eu e a galera descobrimos que misturando cocaína com sangue o efeito dela ficava mais forte, e aos poucos não compartilhávamos a seringa e sim o sangue que cada um cedia para diluir o pó. No início a minha mesada cobria os meus custos com as malditas, porque a galera repartia e o preço era acessível. Comecei a comprar a “branca” a R$ 7,00 o grama, mas não demorou muito para conseguir somente a R$ 15,00 a boa, e eu precisava no mínimo 5 doses diárias. Saía na sexta-feira e retornava aos domingos com meus “novos amigos”. Às vezes a gente conseguia o “extasy”, dançávamos nos “Points” a noite inteira e depois farra.
O meu comportamento tinha mudado em casa, meus pais perceberam, mas no início eu disfarçava e dizia que eles não tinham nada a ver com a minha vida. Comecei a roubar em casa pequenas coisas para vender ou trocar por drogas. Aos poucos o dinheiro foi faltando e para conseguir grana fazia programas com uns velhos que pagavam bem. Sentia nojo de vender o meu corpo, mas era necessário para conseguir dinheiro. Aos poucos toda a minha família foi se desestruturando. Fui internada diversas vezes em Clínicas de Recuperação. Meus pais sempre com muito amor gastavam fortunas para tentar reverter o quadro. Quando eu saía da Clínica agüentava alguns dias, mas logo estava me picando novamente. Abandonei tudo: escola, bons amigos e família.
Em dezembro de 1997 a minha sentença de morte foi decretada; descobri que havia contraído o vírus da AIDS, não sei se me picando, ou através de relações sexuais muitas vezes sem camisinha. Devo ter passado o vírus a um montão de gente, porque os homens pagavam mais para transar sem camisinha. Aos poucos os meus valores, que só agora reconheço, foram acabando, família, amigos, pais, religião, Deus, até Deus, tudo me parecia ridículo. Meu pai e minha mãe fizeram tudo, por isso nunca vou deixar de amá-los.
Eles me deram o bem mais precioso que é a vida e eu a joguei pelo ralo. Estou internada, com 24kg, horrível, não quero receber visitas porque não podem me ver assim, não sei até quando sobrevivo, mas do fundo do coração peço aos jovens que não entrem nessa viagem maluca… Você com certeza vai se arrepender assim como eu, mas percebo que é tarde demais pra mim.



OBS.: Patrícia encontrava-se internada no Hospital Universitário de Florianópolis e descreve a enfermeira Danelise, que Patrícia veio a falecer 14 horas mais tarde que escreveram essa carta, de parada cardíaca respiratória em conseqüência da AIDS.
Por favor, repassem esta carta. Este era o último desejo de Patrícia. 


3 days ago · 13332 notes · reblog
originally: 25-13 · via: hopeyourinstinct

Safadeza é bom e eu gosto.

Gosto de ser tagarela, gosto mesmo.

Dizem que engoli uma vitrola. Disso eu não sei, mas que eu me lembre… Tenho boca para falar. E pelo que eu saiba, como nesse século temos liberdade de expressão, ninguém tem o direito de costurar a minha boca. Me respondam, qual é a função dessa coisa que está entre o meu queixo e o meu nariz? É só pra fazer bico? É para passar batom? Não. É para algo mais. A boca foi feita para falar. Entenderam? Para soltar frases, expor opinião. Se vocês acham que eu devo ficar quieta, problema é de vocês. Não meu! Que mundo é esse que eu não tenho a permissão para dizer o que vem na minha mente? É o mesmo mundo em que praticam o crime como se fosse água? Por que eu não posso soltar o que estou sentindo se um monte de gente toma conta da minha vida? ? Eu posso sim. O motivo que levam vocês a me pedir isso, pedir para que eu reduza minhas falas é bem óbvio: a verdade. Sou completamente realista, nem curto ficar mentindo para os outros (apenas quando é necessário) e não devo nada para alguém. Nenhum centavo. Agora, se vocês não temessem a fúrias das minhas palavras, não iriam me encher o saco! Quer que eu faça silêncio? Me obriguem! Talvez vocês tenham esquecido, porém a época da escravidão já acabou! A da ditadura também! Pelo amor de Deus! As pessoas não me poupam! Elas fazem comentários idiotas sobre mim! Me julgam, me discriminam por tudo! Aí na minha vez de argumentar, querem me impedir? Tirem o cavalinho da chuva! Depois eu que sou a maluca, a doida varrida. Bando de pirados!

~ Blá blá blá, blá blá blá. Mayne Silva (via linhasgastas)
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cducion:

SÓ EU NUNCA FIZ ISSO?